.Confidencial



"Operação Bulmus 6"

Como as forças especiais de Israel destruíram uma importante
estação de radar em uma pequena ilha no Golfo de Suez.


Green Island, no Golfo de Suez, em 1969 Durante a chamada "Guerra de Atrito", iniciada em 1969, a intenção declarada do Egito era desgastar Israel através de ataques constantes e em pequena escala contra posições israelenses ao longo do Canal de Suez. Em 10 de julho de 1969, os comandos egípcios atravessaram o Canal em botes e montaram um ataque sangrento na posição israelense em Mezach, na margem leste. Sete israelenses foram mortos e cinco foram feridos, e outros foram levados de volta ao Egito como prisioneiros. Muitos dos soldados israelenses que ali serviam eram reservistas, preocupados com suas esposas, filhos e empregos em Israel. Eles só queriam estar em casa com segurança. A moral dos homens ficou muito abalada. A invasão egípcia merecia uma resposta à altura. As Forças de Defesa de Israel (IDF) entregaram a responsabilidade de retaliação à Shayetet 13, uma unidade de elite dos comandos navais israelenses. Decidiram então que a posição mais forte do Egito na zona do Canal de Suez, Green Island onde haviam instalado uma estratégica estação de radar, teria que ser atacada e destruída. Se fosse bem sucedida, abriria um corredor aéreo por onde os caças da IDF poderiam atingir a base naval egípcia em Ras Adabia, diversas baterias de artilharia que estavam fustigando posições israelenses ao longo do Canal e do deserto do Sinai, entre outros objetivos de alto valor estratégico. Apesar de pequena, os egípcios a consideravam uma fortaleza inexpugnável e símbolo de sua proeza militar e era lá que eles se sentiam mais seguros. Green Island, ou Al Jazeera Al Khadraa, havia sido construída pelas forças britânicas durante a Segunda Guerra Mundial. Localizada a 4 km ao sul da cidade de Suez e à foz do Canal, com apenas 145 metros de comprimento e 50 metros de largura. Foi construída sobre uma camada de corais estáveis e feita de concreto armado, com dois bunkers no centro de um grande pátio. No final da ilha, uma ponte de concreto a ligava a uma torre circular que suportava a antena do radar e duas metralhadoras antiaéreas pesadas. Uma parede com 2,4 metros de altura reforçada com espessas filas de arame farpado foi construída em seu entorno, sobre a qual uma série de posições de metralhadoras haviam sido instaladas, com o intuito de impedir qualquer incursão vinda pelo mar. Era uma posição defensiva formidável com um controle total das águas circundantes.

A guarnição consistia em cerca de 100 soldados de infantaria egípcios e 12 comandos da As-Sa'iqa, catorze posições de metralhadoras, duas armas antiaéreas de 37mm e quatro canhões antiaéreos de 85mm. Do ponto de vista militar, Green Island poderia ter sido mais facilmente atacada por artilharia israelense ou pela aviação com menos riscos de perdas de vidas, mas um assalto de comandos enviaria uma mensagem clara ao Egito e se esperava que tivesse um efeito negativo sobre a moral de suas forças militares. Optou-se por uma operação combinada, dividida entre os elementos da unidade de reconhecimento do Sayeret Matkal e os comandos navais da Shayetet 13. O tenente-coronel Zeev Almog comandaria a operação. O ataque seria lançado na noite de 19 de julho e o elemento surpresa era fundamental. Os objetivos específicos foram definidos: destruição dos canhões antiaéreos de 85mm, do edifício principal ao norte, do radar e dos equipamentos ELINT. Foram feitos vários reconhecimentos prévios da área e os planejadores sabiam que só havia uma maneira pela qual a ilha poderia ser abordada: pela via subaquática. A única opção para a primeira onda do assalto, com os comandos da Shayetet 13, seria nadar debaixo d'água em uma profundidade segura o suficiente para evitar a detecção por várias horas e emergir literalmente sob os "narizes" dos egípcios na base de seu alvo. Os homens da Sayeret Matkal não foram treinados para operações subaquáticas, então eles teriam que permanecer em segurança longe do alvo até a unidade da primeira onda ter desembarcado na ilha. Somente quando esta tivesse garantido a cabeça de praia, aqueles comandos, ancorados a 1.500 metros de distância, seriam acionados. A maioria deles decidiu transportar um fuzil AK-47 em vez da submetralhadora Uzi, na medida em que o AK-47 era conhecido por funcionar melhor depois de ter sido submerso debaixo da água. O treinamento foi intenso. A coleta de informações da Inteligência também aconteceu, com pequenas unidades infiltradas nos arredores de Green Island para verificar as defesas inimigas. Eles descobriram que os egípcios estavam em um alto nível de alerta. O plano exigia que os comandos navais, usando barcos infláveis Zodiac, liderariam a primeira onda de assalto. A segunda onda, com homens do Sayeret Matkal, consistiria em equipes de comandos, médicas e de extração.

Comandos navais israelenses do Shayetet 13 no assalto a Green Island em 1969 Os comandos da segunda onda sustentariam o combate, em apoio aos homens da Shayetet 13. A primeira onda consistiu em quatro equipes de dois oficiais e três comandos cada e partiram das vizinhanças de Ras Sudar, na margem leste do Golfo de Suez, às 20:30hs. Eles se aproximaram a menos de 900 metros da ilha de barco, então mergulharam usando equipamentos de circuito fechado, que não soltam bolhas. Cada homem carregava 40 kg de equipamentos. Eles emergiram na ilha com 8 minutos de atraso, causado por um mergulho mais difícil do que o esperado devido às correntes. A primeira equipe cortou o arame farpado, permitindo que a segunda equipe avançasse e reagisse à uma resposta inicial egípcia. A terceira equipe cruzou uma pequena ponte e atacou a torre onde haviam armas antiaéreas e os equipamentos do radar. A quarta equipe limpou o bunker principal. Metade dos incursores limpou ou bloqueou a área sul da ilha, a fortaleza, enquanto a outra metade eliminou o radar e os equipamentos antiaéreos. Isso foi complicado pelo fato de que a maioria de suas granadas de mão se tornaram inúteis pela exposição exagerada à água do mar. O ataque às defesas da ilha foi apoiado por uma equipe extra de comandos navais que forneceu cobertura de fogo com o uso uma bazooka e uma metralhadora leve, posicionados em um pequeno afloramento rochoso ao sul da ilha. Neste ponto, o comandante da primeira onda, o tenente Dov Bar, usou um sinalizador para liberar o avanço da segunda onda e para evitar que fossem pegos pelo fogo cruzado dos combates, ele usou mais um sinalizador para fazer com que a equipe de apoio de fogo nas rochas ao sul interrompessem os disparos. A segunda onda, que estava em marcha nos seus Zodiacs no Golfo, desembarcou na ilha e rapidamente montaram um posto de comando e apoio, neutralizando as posições dos canhões 85mm. Não muito maior do que um campo de futebol, todos os combates na ilha foram realizados a curta distância. Enquanto alguns dos comandos começaram a cortar o arame farpado, uma sentinela egípcia começou a andar em direção a eles. Um comando israelense o derrubou, o que alarmou outro soldado egípcio, que lançou uma granada contra eles. Três israelenses foram feridos e a ilha foi engolfada pelos combates. Quando os egípcios correram para fora de seus alojamentos, os comandos começaram a atirar forçando-os a retornarem. Muitos israelenses foram feridos, mas avançaram apesar disso. Como eles não sabiam se a força de apoio da Sayeret Matkal iria chegar a tempo ou não, os comandos em terra estavam atacando os bunkers "reservados para o Sayeret". A resposta egípcia à primeira onda foi descoordenada no início, depois tornou-se feroz, empregando metralhadoras pesadas e lança-rojões. Muitos deles se recusaram a se render, mantendo suas posições até serem eliminados.

Após a chegada da segunda onda, os esforços dos defensores tornaram-se esporádicos e novamente descoordenados, com alguns saltando do alto do muro para o mar e, eventualmente em desespero, solicitando fogo de artilharia sobre suas próprias posições. Depois de apenas 17 minutos, as unidades controlavam grande parte da ilha. A extração foi ordenada às em 02:15hs, na madrugada do dia 20. Por volta das 03:00hs, as equipes já estavam a bordo dos Zodiacs e se dirigiam para a margem oriental do Golfo quando as cargas deixadas na ilha explodiram, destruindo as instalações restantes. A esta altura os disparos da artilharia egípcia castigavam o seu trajeto e o local detereminado para aportar, levando vários botes para longe e atrasando sua chegada em segurança, enquanto procuravam praias alternativas no lado israelense. Um bote foi atingido e então abandonado a menos de 400 metros da ilha, mas a equipe foi resgatada por helicóptero às 05:00hs, depois de passar várias horas nadando em direção à margem leste. Por suas ações de bravura durante os combates na ilha, o tenente Ami Ayalon recebeu a Medalha de Valor, a maior condecoração de Israel. O resultado do assalto foi a destruição de todas as instalações egípcias em Green Island. As vítimas israelenses foram três mortos do Sayeret Matkal e três do Shayetet 13, além de onze feridos. As baixas egípcias foram 80 mortos (quase toda a guarnição) e um número desconhecido de feridos. Uma série de vítimas do lado egípcio foi causada por "fogo amigo" dos bombardeios de sua própria artilharia. Após a invasão, a Força Aérea israelense explorou o "buraco" nas defesas aéreas egípcias proporcionado pela destruição da estação de radar, para lançar a Operação Boxer, engajando a Força Aérea egípcia em mais de 300 dogfights e bombardeios. Os comandos navais ainda realizariam outras 80 incursões ao longo do Canal de Suez até o cessar-fogo de 1970, que encerrou a chamada "Guerra de Atrito". A "Operação Bulmus 6" permaneceu como "altamente classificada" por mais de 25 anos e somente recentemente os israelenses confirmaram a sua existência.



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