A arma dos pilotos kamikaze

No final da guerra, em desespero, os japoneses lançam mão de uma arma assustadora.


Yokosuka MXY7 Ohka O Yokosuka MXY7 Ohka foi uma das mais macabras máquinas de guerra já inventada. Uma aeronave criada para matar seu próprio piloto. Em 1944, quando o Império do Japão percebeu que seu fim era iminente, buscou inspiração no código de honra dos samurais pelo qual um guerreiro japonês vive e morre, e então surgiu a cruel doutrina dos kamikaze (vento divino, em japonês) que literalmente determinava que os pilotos conduzissem suas aeronaves em um impacto direto contra os navios da Marinha americana, sacrificando sua vida pelo Imperador. Os primeiros ataques kamikaze foram observados durante os esforços dos Aliados para recapturar as Filipinas em julho de 1944 e chegou ao seu ápice durante a invasão de Okinawa em abril de 1945.

Inicialmente esses ataques eram conduzidos por aeronaves desenhadas para outras finalidades, como bombardeiros, caças e até pequenos aviões de treinamento. Mas esta doutrina chegou a um nível de loucura tal, quando em abril de 1945 o MXY7 Ohka fez sua aterrorizante estréia na batalha de Okinawa. Este era essencialmente um torpedo voador, com asas de madeira e impulsionado por um motor-foguete, carregando 1.200 kg de alto explosivo no nariz e guiado até o alvo pelo piloto kamikaze. Ironicamente, esta invenção foi a única aeronave não movida por hélices a ser amplamente utilizada pelas forças japonesas durante toda a Segunda Guerra Mundial. Com um comprimento de 6,05 m e uma envergadura de 5,12 m, seu peso máximo na decolagem era de 2.140 kg e a propulsão era fornecida por uma combinação de três foguetes Type-4 de queima rápida que forneciam cerca de 810 kg de empuxo.

O MXY7 Ohka lançado por um bombardeiro Mitsubishi G4M Desenhado por Mitsuo Ohta com a ajuda de estudantes do Instituto de Pesquisas Aeronáuticas, que trabalharam dentro do complexo da Marinha Imperial na baía de Tóquio durante o verão de 1944, o MXY7 Ohka (cerejeira florida, em japonês) foi produzido por diversas empresas, entre elas a Fuji e a Hitachi ainda hoje presentes em nosso cotidiano com bens de consumo, digamos, menos mortais. Um total de 852 unidades do MXY7 foram montadas, sendo que 755 delas eram do Modelo 11. Outras versões foram desenhadas para serem lançadas a partir de bases no litoral, de cavernas na costa ou mesmo de submarinos equipados com catapultas, porém não chegaram à fase operacional. Estas variantes incluiam o Modelo 22 movido por um motor a jato, com seu alcance ampliado e carregando uma carga explosiva de 600 kg e o Modelo 43 utilizado para treinamento, com a ogiva substituída por um segundo cockpit para o instrutor (interessante imaginar o que se passava na mente de uma pessoa que treinava uma outra para voar e morrer com o MXY7).

Uma missão típica começava com o piloto sendo atado no cockpit sem paraquedas e transportado desconfortavelmente até cerca de 20 milhas do seu objetivo, por um bombardeiro Mitsubishi G4M. O MXY7 precisava ser carregado desta forma porque seu motor-foguete e sua aerodinâmica simples não permitiam que ele decolasse de um aeródromo por suas próprias forças. Após ser liberado pelo bombardeiro, o piloto deveria acionar os foguetes e então teria entre 3 e 4 minutos para localizar o seu objetivo, que normalmente era uma navio da frota americana. Nos momentos finais do voo, que consistia de um mergulho acentuado do qual não poderia se recuperar, o MXY7 podia atingir uma velocidade de quase 1.000 km/h, o que o tornava particularmente mortal e difícil de ser abatido. Mas o registro operacional dos Ohka aponta sete navios americanos afundados ou danificados por eles durante todo o conflito, entre os quais o encouraçado USS West Virginia, sobrevivente do ataque a Pearl Harbor, que foi severamente danificado em 1º de abril de 1945 e o destroier USS Mannert L.Abele afundado onze dias depois, ambos ao largo da ilha de Okinawa. O MXY7 Ohka foi o último ato de desespero de uma nação milenar, mas ele não foi capaz de alterar o triste desfecho da guerra que estava inexoravelmente por vir.





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