A Batalha de Mogadíscio

Comandos americanos encararam uma luta de vida ou morte pelas ruas da capital da Somália em 1993.


A Somália, um dos países mais pobres do mundo localizado geograficamente no leste do continente africano, em uma região conhecida como o "chifre da África", no início dos anos 90 era um lugar muito problemático e perigoso. Um golpe de Estado havia deposto o presidente Mohammed Barre em janeiro de 1991 e tempos depois a coalizão que sustentara o golpe havia se fragmentado, iniciando uma período de lutas ferozes entre as diversas facções pela liderança da nação. O conflito provocou a destruição da base agrícola do país, levando então a fome a milhares de pessoas. Então foi providenciada uma ajuda humanitária internacional para levar alimentos a esta população, porém gangues leais às facções em combate roubavam estes suprimentos para suas próprias necessidades ou as vendiam no mercado negro para comprar armas. A resposta veio através de uma resolução da ONU de enviar proteção militar para os comboios e o pessoal que os operava. Tropas dos Estados Unidos e de outras nações, notadamente do Paquistão e da Malásia, seriam empregadas para este propósito. A "Força-Tarefa Ranger" era composta de uma companhia do 75º Ranger Regiment, um esquadrão do 1º Special Forces Operational Detchment Delta, dezesseis helicópteros do 160º Special Operations Aviation Regiment (SOAR) "Night Stalkers", homens do Navy SEALs e controladores aéreos avançados do 24º Special Tactics Squadron da US Air Force. Era preciso também controlar as gangues que atuavam livremente na capital Mogadíscio e prender um de seus líderes mais influentes e sanguinários, o "general" Mohammed Farrah Aidid. Quando a Inteligência americana soube de um encontro de Aidid com seus principais colaboradores em uma sala no segundo andar de um prédio no centro da capital, marcado para o dia 3 de outubro de 1993, foi decidido lançar uma operação para capturá-los, utilizando-se uma combinação de assalto helitransportado de homens das forças especiais e incursão de tropas em terra pelas ruas da cidade. Denominada "Operação Irene", o plano era efetuar um ataque rápido com forças especiais descendo dos helicópteros de rapel sobre o esconderijo de Aidid pegando-os de surpresa, enquanto as forças de apoio se dirigiriam-se em veículos blindados até pontos pré-estabelecidos para recolher os detidos na ação. Quando os componentes aéreo e terrestre iniciaram seu trânsito através da cidade em direção a seus objetivos, uma inesperada e feroz resistência começou a aparecer em seu caminho. Barricadas levantadas pelos insurgentes retardaram os comboios das tropas em terra e seus veículos começaram a ser atacados com lança-rojões RPG-7, que também eram usados contra os helicópteros MH-60 Black Hawk que levavam os homens do US Rangers, por guerrilheiros operando nos terraços dos edifícios. Este tipo de arma, um lançador de granada não guiada, não é a ideal para derrubar uma aeronave, mas helicópteros voando baixo e se deslocando lentamente tornam-se alvos fáceis, ainda mais porque a ogiva do RPG-7 é grande o bastante para causar danos consideráveis quando atinge seu alvo. Logo um dos MH-60 Black Hawk foi atingido e caiu e o helicóptero de resgate enviado para o local também foi derrubado. Mas apesar do violento choque com o solo, parte da equipe de resgate conseguiu remover cinco feridos do acidente para um lugar seguro onde poderiam aguardar uma futura retirada. Uma força de 90 homens do US Rangers foi destacada para resgatar as tripulações dos helicópteros destruídos e foram então desembarcados em um local o mais próximo possível da área da queda. Naquele momento a extração se tornou impossível pela quantidade de rebeldes armados nos prédios e ruas da região e os Rangers tomaram posição nas casas vizinhas e se prepararam para lutar por suas vidas. Enquanto isto, outro MH-60 havia sido derrubado. Dois corajosos homens da Força Delta insistiram com seus superiores para que fossem autorizados a descerem no local para protegerem o piloto abatido. Assim o fizeram e após lutarem com os insurgentes até a última de suas munições, tombaram e o piloto foi capturado. Os sargentos Gary L.Gordon e Randall D. Shughart foram postumamente condecorados com a Medalha de Honra por sua bravura em combate.

Os Rangers que estavam próximos ao local da primeira queda viram-se cercados e atacados por todos os lados. Por sorte eles haviam mantido vários civis sob custódia ao ocuparem as suas casas, uma vez que o general Aidid não os atacaria frontalmente pelo temor de matar também muitos de seus conterrâneos, o que o deixaria mal com a população somali. Mesmo assim vários ataques foram feitos durante a noite que foram rechaçados com grande dificuldade. Os homens sitiados receberam apoio aéreo de helicópteros armados com metralhadoras e foguetes, mas sua posição era desesperadora na manhã seguinte, contabilizando 18 Rangers mortos e 79 feridos durante os combates. Os planejadores da missão haviam trabalhado durante a noite em um plano para retirar as tropas desta situação limite. A idéia era usar uma força conjunta com homens dos Estados Unidos, do Paquistão e da Malásia, em um comboio de mais de 100 veículos blindados pesadamente armados, que abririam seu caminho através das ruas da capital para extrair de lá os exauridos Rangers. Não se sabe ao certo quantos insurgentes somalis foram mortos e feridos durante os ataques às tropas ou na missão de resgate. Alguns dizem que foram mais de 1.000 guerrilheiros mortos e quase 4.000 feridos. Além das perdas americanas, três homens morreram e sete ficaram feridos entre os contingentes paquistaneses e malaios. O piloto americano capturado foi posteriormente libertado. O relativo pequeno número de baixas do lado americano pode ser creditado ao treinamento superior e ao maior poder de fogo de suas forças especiais, além da vantagem de usarem posições bem defendidas contra uma força irregular. A "Operação Irene" foi, pelo menos no papel, um bom plano, fazendo uso de mobilidade, velocidade e poder de fogo. Porém por uma série de razões ela não saiu como o planejado. Comunicações falhas entre as forças envolvidas resultaram em uma longa espera enquanto o contigente em terra esperava pelo sinal para se mover e resgatar os prisioneiros. Foi durante este período que o segundo helicóptero MH-60 Black Hawk foi abatido. A autoconfiança também pode ter tido sua parcela de culpa. Não se previu que os helicópteros poderiam ser atacados no perímetro urbano ou que parte do contigente terrestre poderia ser impedido de avançar pelas barricadas em território hostil. Não havia um plano de contingência para resgatar as tropas em terra se algo desse errado durante o desenrolar da operação. A missão por si só poderia ser considerada um sucesso: os alvos foram capturados e retirados da cidade como haviam planejado. Contudo, a operação foi vista como um grande desastre. A perda de sofisticados helicópteros de combate para insurgentes equipados com armas relativamente simples foi um choque e a perspectiva de ter uma tropa de elite como os Rangers capturados ou mortos em massa por rebeldes, acendeu o sinal de alerta junto aos planejadores militares do Pentágono. Na Era moderna é absolutamente imprescindível se ter a capacidade de combater eficientemente em ambientes urbanos. E nas Forças Armadas americanas o treinamento para este tipo de combate tem tido crescente importância, que se reflete também na aquisição de equipamentos e armas específicos e a capacitação em habilidades adequadas a tropas de manutenção de paz ou que possam se engajar em situações de "quase guerra" ou onde o "inimigo" não está claramente definido. Lições foram aprendidas em Mogadíscio, ainda que a um preço tão alto.





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